quinta-feira, 1 de dezembro de 2022



 

CARACÓIS X CORRUPÇÃO 

            A menina sardenta, em seu traje de bailarina, descia a ladeira, arrastada pela mãe. Pedrita não parecia nem um cadim empolgada com a sua primeira apresentação oficial, desde que fora inscrita na pequena academia de dança clássica situada na cidade vizinha, no interior do Estado de Minas Gerais.

 

            Foi um fracasso. Sua mãe, encolhendo-se na cadeira a cada tombo da menina magricela que, desengonçada, tentava se equilibrar na ponta dos pés, foi o suficiente para convencê-la de que sua filha jamais conheceria os palcos do Teatro Municipal...Foi melhor assim. Não queria ser execrada pelos outros pais no caso de Pedrita quebrar algum dos ossos dos corpinhos minúsculos que arriscavam suas integridades físicas ao efetuarem rodopios graciosos ao lado de Pedrita que gostava mesmo de jogar bola, montar Zinabre, o cavalo que seu padrinho lhe dera quando completara dez anos de idade, a contragosto da mãe que só cedeu aos apelos lacrimejantes da filha quando esta jurara nunca mais tomar banho na enchente provocada pelas chuvas que inundavam a cidade todo mês de janeiro. Dona Joana sabia que sua filha seria capaz de domar um cavalo como ninguém, porém a leptospirose fugia ao seu controle. Isso sem mencionar sua aptidão para arrumar encrenca e uma boa briga. Tinha uma “esquerda” temida até pelos meninos maiores. Pobre mãe de Pedrita! Todo santo dia, uma anotação na caderneta escolar.

 

            Dona Joana, nessas horas, agradecia a Deus por haver apenas uma escola na cidade, caso contrário, sua filha colecionaria expulsões. A pobre mulher, já cansada de comparecer a reuniões de pais onde o assunto principal era o temperamento intempestivo de Pedrita, cruzava a rua e trocava de calçada cada vez que se via um dos pais da mais recente vítima de sua filha se aproximando.

 

            O pai, quase sempre ausente, sobrecarregava a esposa, que acumulava as desgastantes funções de cuidar da casa, dar conta da faculdade de Pedagogia que cursava à noite, em uma cidade relativamente distante, e controlar o gênio indomável de Pedrita.

 

            Seu José trocara a enxada para tentar a sorte na cidade grande. Trabalhava como inspetor, no extinto Instituto Brasileiro do Café, e só visitava a família de dois em dois meses. Dividia um quartinho em uma pensão com um amigo e juntava cada centavo para comprar a primeira casa própria do casal e dar um pouco mais de conforto à sua família.

 

            Nessas visitas esporádicas, o pai sentava-se alegremente em sua cadeira de balanço e, com Pedrita alojada em seu colo, lia e relia os livros infantis que trazia da capital para a menina afoita por conhecimentos, quanto por travessuras.

 

            Quando o piscar da menina inquieta se alongava mais do que o normal, seu pai a colocava na cama, ligava a TV e, abraçado a dona Joana, assistia ao telejornal.

 

            Pedrita, usando da artimanha de fingir cansaço, esgueirava-se até o batente da porta da sala e assistia às notícias “impróprias” para crianças, fascinada.

 

            Não perdia um comentário arredio de seu pai sobre a corrupção que assolava o país, transformando pessoas carentes em escravos de uma coisa que ela não entendia. “Bolsas? Como uma bolsa pode aprisionar alguém?” Até entender aquela coisa esquisita, manteria distância de mulheres que cruzassem seu caminho com sacolas grandes o suficiente para sugá-la e aprisioná-la. Não queria ser pobre para o resto da vida.

 

            Esse medo atormentou Pedrita por longos meses. Chegou a beirar o pânico, a ponto de pedir à mãe que não mais a levasse ao mercadinho de seu Manuel, o que deixou a mãe cabreira, pois era festa para Pedrita o dia das compras semanais, quando escolhia guloseimas variadas e sempre ganhava um pirulito de framboesa do dono do estabelecimento. Dona Joana tinha certeza de que o presente não se tratava de uma cortesia e sim de uma pequena “propina” para manter a menina distante de seu caçula que já havia tomado uns cascudos da filha.

 

            Pedrita que não temia o escuro, passou a ter pesadelos horrendos com monstros multicoloridos que no lugar de asas tinham alças. Acordava suando e gritando pela mãe que a aconchegava em seus braços macios e transformava em névoa a imagem antes tão real e assustadora.

 

            Isso não poderia continuar assim. A menina sentia vergonha do medo. Então, tomou a decisão que mudaria sua vida para o bem ou para o mal. Teria uma conversa com seus pais, pois se chegasse ao ponto de fazer pipi na cama, assombrada pelos tais monstros esquisitos, não mais sairia de casa. Não poderia mais usar aplicar seus jabs nos garotos grandes que ousavam puxar suas tranças com a mesma autoridade.

 

            – O que um político? – perguntou após alguns minutos, para surpresa do homem.

 

            O pai e a mãe se entreolharam como se disputassem a esquiva. Dona Joana deu de ombros, como se dissesse “Agora é com você, querido. Tenho a louça para lavar”.

 

            – São homens que fazem as leis, docinho. Que dizem o que é certo e o que é errado, entende? – A menina pensou, pensou mais um pouco. Enfiou o dedo no nariz e retirou uma meleca considerável e o pai disse “Que coisa feia, Pedrita! Vá lavar esta mão agora!”

 

            – Então mamãe é um político?

 

             O pai não conseguiu segurar a gargalhada e ouviu os protestos da esposa que vieram da cozinha.

 

            – Não, meu anjo. Veja bem, você conhece o prefeito Malaquias?

 

            – Claro que conheço. Ele é bravo, papai. Não deixa eu andar em cima do muro da prefeitura.

 

            –  Pedrita! Não quero você fazendo isso, estamos entendidos? É muito perigoso!

 

–  Mas, pai, os meninos ficam dizendo que só os garotos conseguem. Isso não é justo.

 

             A mãe voltou da cozinha. O assunto estava ficando interessante e dona Joana não perderia a oportunidade de assistir à desenvoltura do pai, que se negava em acreditar nas coisas que sua filha adorada era capaz de fazer.

 

            Pedrita, astuta que era, tratou de voltar ao assunto.

 

            – O prefeito Malaquias é político?

 

            O pai se furtou de encarar a esposa que esperava um sermão do marido que a ajudasse a impor um limite à filha incontrolável.

 

            –  Sim, Pedrita! Um político, além de dizer o que é certo ou errado, arrecada imposto, que é uma parte do dinheiro que todos nós adultos que moramos na cidade, pagamos para que ele possa cuidar da dela, construir hospitais, escolas, estradas, percebe?

 

            Pedrita havia entendido. Um político cuidava da cidade assim como a mãe cuidava da casa. Quanto a esse assunto, deu-se por satisfeita.

 

            O pai voltou sua atenção para o jornal que deixara em canto da mesa. Era sua hora de descobrir como andava seu time na tabela do campeonato carioca.

 

            Entretido, não se deu conta de que Pedrita não havia se levantado e o olhava fixamente, sendo observada pela mãe, que previa novidades a qualquer tempo.  A pouquíssimo tempo.

 

            – Pai, o que é corruspito?

 

            O pai, de boca aberta, pronto para engolir uma colherada robusta de pudim de leite condensado, assim ficou por algum tempo.

 

            José largou o jornal e a colher de sobremesa. Convencera-se de que seu dia de ser pai havia chegado e teria que fazer o melhor, pois a filha não era menina de ser ludibriada facilmente.

 

            – Corrupto, Pedrita.

 

             A mãe a corrigiu, mas, novamente, deixou para o pai a tarefa de esclarecer à filha sobre o complexo assunto. Dona Joana, na verdade, divertia-se com o desconforto do marido.

 

            O homem se remexeu na cadeira e coçou o cavanhaque. Crianças na fase dos “por quês” são piores que coceira naquele lugarzinho onde o braço não alcança.

 

            – Pedrita, há diversas formas de corrupção, mas vou explicar a mais comum, assim você entenderá com facilidade, esperta que é.

 

            O pai apertou a bochecha da filha e ela sorriu.

 

            – Há diversos políticos que são corruptos, ou seja, que pegam o dinheiro dos impostos que pagamos, como expliquei, e não constroem nada para tornar as cidades melhores.

 

            – E o que eles fazem com o dinheiro?

 

            José curvou-se em direção à filha e sussurrou em seu ouvido:

 

            – Desviam, quer dizer, gastam o dinheiro que não lhes pertence. Imagine você entrando sorrateiramente no quarto de Juju, sua melhor amiga, pegar a mesada dela e gastar tudo com coisas para você. Errado. Muito errado tomar o que não é seu.

 

            – E por que eles fazem isso?

           

            Xeque-mate! O homem olhou para a esposa implorando ajuda. A mulher lhe deu as costas, pegou o guardanapo e limpou a boca suja de feijão da filha. O pai se viu sozinho naquela encruzilhada. Dona Joana sorria silenciosamente.

 

            – Por que são pessoas ruins, sem coração, sem amor ao próximo, entende?

 

            Os olhos semicerrados da mãe diziam que a resposta estava aquém do esperado, mas torceu para que a filha se convencesse.

 

            Pedrita apoiou os cotovelos na mesa para sustentar a cabecinha, como se as dúvidas pesassem feito chumbo. As coisas ainda não se encaixavam na mente insubmissa da menina.

 

            Pedrita não se deu por vencida. Uma comichão de curiosidade invadia sua mente e não conseguiria pregar o olho a noite se não descobrisse algo sobre o que a atormentava.

 

            – É verdade que existem bolsas que comem pessoas pobres?

 

            O pai engasgou e tossiu feito louco a ponto fazer dona Joana se levantar rapidamente, dar a volta na mesa e aplicar-lhe tapinhas nas costas. Pedrita ficou paralisada. A coisa deveria ser feia mesmo. Tão feia que quase matara seu pai que roxo ficou somente ao ouvir a palavra. Já havia se arrependido de ter feito a pergunta quando o homem, recuperando o fôlego e a cor normal, conseguiu emitir um arremedo de sorriso.

 

            – Menina, com quem anda conversando?

 

            Os pais a olhavam ansiosos por uma resposta e Pedrita se encolheu na cadeira. “Como explicar que andei espionando meus próprios pais?”, pensou, tentando articular uma resposta que não comprometesse sua traquinice.

 

            – Ouvi na escola. A filha do seu Martin contou às suas amigas da oitava série que o pai de Martinha só vive porque uma tal de bolsa deixa. Ele é pobre, não é?

 

            O pai a pegou no colo e a mãe acariciou seus cabelos. Pedrita estava assustada, o que impediu os pais de se divertirem diante de tamanha ideação.

 

            – Filha, bolsa é um dinheiro que o governo distribui às pessoas de baixa renda, ou seja, sem muito dinheiro – respondeu José.

 

            Pedrita não ouviu o último comentário do pai. Estava revoltadíssima e as bochechas escarlates faziam companhia às mãozinhas cerradas. Não mais se importava com explicações.

 

            “Dinheiro? Passara os últimos meses com medo de dinheiro?” Pedrita recriminou-se por ter sido tão covarde.

 

****

 

            A menina acordou feliz. Não havia mais medo em seu coração, então resolveu visitar a avó. Comeria tutu e bolinho de arroz depois de ajudá-la na horta, coisa que a menina apreciava.

 

            A casa exalando perfume de margaridas recém-colhidas, o retrato do avô com uniforme do exército, em cima do jarro que adornava a mesinha de canto, e o sofá coberto com uma colcha de retalhos coloridos, costurada com zelo pela vovó Manuelita, trazia aconchego ao coração da menina.

 

            – Vó!

 

            Já entrava gritando e se dirigindo ao pote de doce de abóbora feito no fogão à lenha da doceira Pepita. Doce melhor, na cidade não havia.

 

            A avó, que sempre respondia ao seu chamado, ignorou-a e continuou praguejando. Pedrita caminhou pé ante pé e viu a enxada pendendo em uma das mãos da senhora que coçava a cabeça como se procurasse uma solução para um enorme problema. Na verdade, estava...

 

            – Vovó?

 

            – Ah, oi, menina levada! Vem dar um cheiro nesta velha aqui, vem! – dona Manuelita largou a enxada e agarrou sua neta com as mãos sujas de terra.

 

            – Está tudo bem, vovó?

 

            – Tá não, fia. Esses caracóis estão comendo toda minha horta. Tiro eles de dia e no outro lá estão outros. Isto é uma praga! – grunhiu a avó, desolada.

 

            – Vó, posso ver um?

 

            – Claro! Dê uma olhada dentro daquele latão ali. Achei mais de dúzia deles.

 

            Pedrita quase enfiou a cabeça dentro do recipiente e analisou com cautela. Depois olhou para as couves, todas carcomidas nas beiradas.

 

            – Vovó, eles são pobres?

           

            A avó ergueu uma de suas sobrancelhas, tentando entender a pergunta inusitada da neta.

 

            – Pobres? Por que me pergunta uma coisa dessa, menina? Animais são sempre pobres caso não tenham um dono que lhes dê de comer.

 

            Foi uma resposta pequena para uma pergunta tão grande e a avó sentiu-se envergonhada.

 

            – Zinabre não é pobre, então. Eu dou dê comer pra ele...

 

            – É verdade. Zinabre é rico, muito rico, porque tem seu amor, Pedrita.

 

            – Por que o governo não dá uma bolsa para eles?

 

            – Jesus, misericórdia! Olha, menina, vou ter uma conversa séria com seus pais. O que José anda colocando em sua cabecinha tão jovem?

 

            Manuelita não se dirigia à neta. Já pensava no puxão de orelhas que daria em seu filho. Estava certo em não aceitar passivamente o caos em que se transformara o país, como a grande maioria das pessoas, mas isso não era justificativa para encher a cabeça de uma criança de caraminhola.

 

            Pedrita sentou-se na pedra onde costumava descansar após amaciar, adubar e regrar a horta com a avó e ficou pensativa.

 

            Dona Manuelita continuou os trabalhos, mas de vez em quando olhava de soslaio para a neta.

 

– Está certo, Pedrita, fale logo. Sei que vai falar mais cedo ou mais tarde.

 

             A avó deixou, mais uma vez, a enxada de lado e se sentou ao lado da neta.

 

            – Vovó, você está errada. Eles não são pobres. Se fossem, ganhariam bolsas, papai não mentiria para mim!

           

            Manuelita jogou a as mãos para o céu. Rendeu-se às conclusões tortamente coerentes.

 

            – Tudo bem, Pedrita. Se eles não são pobres, o que são, então, menina?

 

            – Corruptos! Roubam as coisas dos outros!

 

            – Faz sentido... Vai ver que é por isso que eles são enrolados...

 

            – Vovó! – a menina levantou-se de um salto.

 

            Dona Manuelita, por puro reflexo, pôs-se de pé também, assustada com a euforia da neta.

 

            – Isso, vovó! O guarda Vanderley prende gente enrolada. Será que ele não poderia dar um jeito nesses caracóis?

 

            – Olha, Pedrita, desde que eu me entendo por gente, corruptos não vão para a cadeia. E se vão, ficam presos por pouco tempo, entende?

 

            – Por que não?! – a menina pôs as mãos nas “cadeiras”.

 

            Manuelita suspirou profundamente.

 

            – Pedrita, quando chegar a hora, acredite na vovó, não gostará do que vai ouvir como explicação.

 

            A avó parecia infeliz. Não queria que sua pequena sofresse por antecipação por uma coisa tão sórdida.

 

            As pessoas se acomodam com o que não podem mudar... Com o que pensam que não podem mudar. Dona Manuelita olhou para o formigueiro... Cada formiguinha fazendo sua parte.

 

             A neta, ao perceber a angustia da avó, apressou-se em dizer:

 

            – Não precisa se preocupar, vovó. É assunto de adultos. Se um dia vou entender, tudo bem. Posso regrar os tomates?

 

            Dona Manuelita desmanchou os cabelos da neta com um afago. A trégua oferecida pela neta a comoveu, pois sabia que a menina só abrira mão de uma explicação razoável porque a viu atordoada.

 

            – Pode sim, meu bem.

 

            As duas trabalhavam em silêncio até Pedrita chegar à conclusão a que todos chegamos um dia.

 

            – Vovó?

 

            – Sim?

 

            – Não quero crescer...

 

– Bom seria se nunca crescêssemos, Pedrita...

 

****

 

            No Plenário da Câmara, a deputada federal mais jovem que o país já elegera, Pedrita Soares da Veiga, defendia com fervor a lei que tornaria crime hediondo a corrupção, quando um deputado fanfarrão, já em seu quarto mandato sem sequer ter apresentado qualquer projeto de lei que beneficiasse o povo, interrompeu-a:

 

            – O que a jovem deputada entende sobre projetos de leis?

 

            O sorriso zombeteiro provocou reboliço entre seus cupinchas que ironizavam, nos bastidores, a roceira que mal saíra dos cueiros e já queria dar lição de moral naqueles que se julgavam experientes.

 

            Sem alterar a voz ou perder a compostura, a moça respondeu:

 

            – Pouca coisa, nobre deputado, mas sei tudo que preciso saber sobre “caracóis” ...

 

sábado, 26 de novembro de 2022

A ILHA E O TREM

 


Nasci em uma cidade do interior do Estado do Rio de Janeiro. Meu pai conduzia um dragão daqueles que soltava fogo pelas ventas e rangia quando se punha em movimento como se isso fosse uma tortura. Era maquinista, meu herói.

            Muitas vezes, ele me deixava puxar aquela cordinha mágica que prenunciava a partida do monstro de aço. Não posso atinar reviver tamanha tristeza ao vê-lo deixando a cidade lentamente enquanto o acompanhava até os limites da calçada da estação onde meu adeus morria.

            Hoje um sorriso adulto surge em meus lábios quando me lembro dos meus olhinhos marejados de lágrimas, já prenunciando saudade, que acompanhavam o desaparecer do trem na curva que o engolia, deixando para trás apenas seu barulho irreprodutível.

            Com o último adeus de meu pai eu voltava minha atenção para algo divertido, pois era uma criança e crianças se deixam ludibriar facilmente com a promessa de algo de seu interesse. Uma bênção da efêmera pureza.

            De mãos dadas à minha mãe, deixava a estação e caminhava, alegremente, para a barraquinha de sorvete do seu Miguel. Ali os meus amigos me esperavam para novas aventuras em cima das goiabeiras do sítio do meu tio Dôdo ou – nossa traquinagem favorita que mamãe nunca poderia saber – para azucrinarmos a vida da vaca, chamada Sardinha, que ele mantinha por ser uma excelente reprodutora mal humorada. Assim que o animal enfurecido cedia aos nossos apelos e partia com toda fúria em nossa direção, corríamos até a cerca que nos separava e, assim que passávamos por entre os fios de arame farpado, ficávamos fazendo careta para a vaca que, visivelmente contrariada, voltava sua atenção para a grama verde e apetitosa.

            Assim, cresci... Deixei o interior e me mudei para a capital para completar meus estudos. Fui morar com meus avós em um apartamento em Copacabana.

            Já havia os havia visitado inúmeras vezes, mas nunca com a certeza de que não mais voltaria ao meu lar, à minha terra, onde deixei minha inocência e Sardinha. Não havia argumentos que pudessem comprovar essa certeza que brotou em meu coração assim que deixei minhas malas no quarto preparado com esmero para me receber. Então, chorei ao me dar conta de que o vazio que sentia não seria preenchido com o meu retorno. Não me mudei de endereço e sim de sonhos e perspectivas. Isso ficou claro quando peguei o telefone para avisar aos meus pais que a viagem fora agradável e minha voz não era a mesma. Caso desistisse naquele momento e pedisse para voltar, creio que não haveria empecilho algum, mas não era o que esperavam de mim... Não era o que eu realmente queria para mim... Nunca mais haveria goiabeiras, nunca mais haveria Sardinha. Até o gosto do sorvete do seu Miguel não seria o mesmo. Então, com a voz engasgada e as lágrimas silenciosas que não pude conter, desliguei não antes da promessa que faria o melhor que pudesse. Cumpri minha promessa.

            Graduei-me, pós-graduei-me, e, como mestra e doutora em Engenharia Civil, conheci o mundo já totalmente alheia ao apito do trem que um dia eu cultuava. Entre uma palestra e outra, não havia tempo para recordações pueris. Sardinha já havia morrido, meu tio vendera o sítio e eu não mais subiria nas goiabeiras que ainda estão lá, provavelmente, sendo exploradas por crianças tão sapecas quanto eu e minha turma de que, diga-se de passagem, nunca mais tive notícias.      

            Certo dia, um grupo de amigos me convidou para uma viagem as Filipinas. O trajeto programado envolvia o aluguel de um barco que nos levaria até as Ilhas Rock, um arquipélago formado por cerca de 250 ilhas, a 240 milhas do continente. Lá mergulharíamos, coisa que não fazia há tempos.

            A princípio, recusei o convite pondo a culpa no trabalho. Depois de ouvir a opinião unânime daqueles que ainda insistiam em me chamar de “amiga” e se importarem comigo, respondi que verificaria minha agenda e retornaria as ligações. As respostas quanto a essa segunda desculpa pouco criativa também foram unânimes: Hã, hã. Sim, eles estavam se cansando...

            Abri um vinho e, com um soul ao fundo, caminhei até minha janela com vista para o mar. Ao me dar conta de que meus pés haviam se esquecido do toque da areia, corri para minha agenda. Não havia nada programado para os dias em que meus amigos estariam fora da cidade. Perplexa, dei-me conta de que no período de um ano, só tomamos uns drinques uma única vez e mesmo assim no meu aniversário, em uma festa surpresa na minha própria casa! Lembrei-me do pijama e da cara amarrotada com que abri, contrariada, a porta e vi todos eles no meu corredor. Traziam seus velhos e francos sorrisos, champanhe, uma torta maravilhosa de abacaxi e chapeuzinhos ridículos de festas infantis. Déjà-vu que me fez pegar o telefone e ligar às três horas da madrugada – para cada um deles e dizer – Tô dentro!” As vozes de sono me perdoaram, afinal era uma boa notícia que lhes dava.         

            O voo foi agradável. Falamos de coisas de que não me lembrava e isso não me causou estranheza, afinal sou uma daquelas pessoas que constroem “arranha-céus” e sequer conhecem seus vizinhos. A cidade grande nos torna pessoas solitárias que se contentam com um celular quando, na verdade, precisam de um abraço. Mas essas questões que banalizamos não deveriam estar naquele avião, então as deixei de lado e me permitir sorrir das piadas sem graça de Marcus, supostamente meu melhor amigo.

            Já no cais, o vento me fazendo travar uma longa e angustiante briga com os meus cabelos que me impediam de contemplar a magnitude do azul. Sem dúvida alguma, não era o mesmo azul que, às vezes, admirava da minha janela. Estava feliz e as cores mudam com o estado de espírito de quem as contempla. Se a ciência não pode provar o que digo, meu coração afirma.       

            A viagem transcorria tranquilamente quando o céu se tornou cinza, depois o cinza deu lugar ao negro. O mar agitou-se a chuva caiu. A princípio, elegante, depois devastadora. As ondas castigavam o casco e o dia se tornou noite. O rádio e a sonda da embarcação deram pane, e o sacolejar do barco desgovernado, espalhou o pânico entre nós.

            O barco aguentou até onde pôde até se chocar com um recife e partir-se ao meio. Estávamos entregues à própria sorte.

            A última coisa de que me lembro foi de me agarrar a um dos destroços do barco, escalá-lo e me jogar sobre ele, envolvendo-o em um abraço desesperado. Ouvi gritos ao longe. Meus amigos estavam morrendo e provavelmente eu também. Desmaiei.

            Acordei com o sol esturricando minhas costas e olhei ao redor. “Uma praia ou miragem?”, pensei. Com o movimento das ondas me levando cada vez mais para a terra chorei minha esperança. Usei da pouca força que me restava para avançar com mais rapidez para terra firme. Estava faminta e com sede e, naquela ilha, rezava para encontrar algo que me mantivesse viva.

            Antes de alcançar a areia, pulei de minha embarcação improvisada e, como não sei, nadei até meus pés encontrarem a areia fria. Gritei como naquela estação, jogando água para todos os lados. Pouco me importei com minha ínfima chance de sobrevivência. A esperança é um sentimento cego e sobrevive de migalhas desde que não a esqueçamos.

            Após a euforia, rastejei até a sombra de uma árvore e uma vertigem me dominou. Não podia desmaiar sem beber algo, caso contrário poderia não acordar.

            Olhei ao redor e, para minha alegria, havia coqueiros por todos os lados; para minha tristeza, não eram goiabeiras. Minha experiência acumulada na infância não me seria útil naquela hora. Não havia galhos naquelas árvores...

            “Pense! Pense! Você não vai morrer aqui!” A imposição ecoou em minha mente trazendo consigo a força que só a morte iminente é capaz de ressuscitar. Pus-me de pé e iniciei as buscas por uma mísera pedra e, enquanto buscava, dei o devido valor aos tijolos que fizeram de mim uma profissional respeitada.

            Encontrei algumas e voltei para a praia quase sorrindo, pronta para a batalha final: coqueiro X sra. engenheira famosa.

            Primeira tentativa: a pedra mal se ergueu meio metro. Pus as mãos nos joelhos e respirei fundo.

            Segunda tentativa: a pedra chegou à metade do tronco. Ajoelhei e rezei.

            Terceira tentativa: a pedra bateu em um dos cocos e este nem se moveu: gritei todos os impropérios que nem sabia que conhecia.

            ?????? tentativa: um coco caiu e eu cai junto. Minhas costas bateram com força na areia dura e a vertigem anuviou minha visão, quase me levando para o mundo dos mortos. Creio que não morri porque me lembrei de Sardinha. Se eu sobrevivi a ela, sobreviveria a qualquer coisa.

            Destrocei o coco já amadurecido e a água desceu pela minha garganta como se fosse a primeira vez que sentia aquele sabor. Delicioso, revigorante, vital... Comi a carne macia da fruta e, em pouco tempo, tornei-me uma expert em subidas em coqueiros.

            Fiz uma cabana com os galhos, bem aconchegante, desconsiderando o fato de que não havia ar-condicionado. Definitivamente, estava enlouquecendo.

            Os dias passavam e eu cada vez mais só. “Há como ser mais só?”, perguntei-me em meu delírio. “Sim. A solidão é autofágica”, respondia.

            Como nos filmes, todos os dias escrevia SOS na areia e não obtive sucesso. Cada vez mais só...

            Em um momento de desatino e desesperança, comecei a desenhar um trem igualzinho ao que meu pai conduzia.

            Com o tempo, fui aperfeiçoando minha arte. A chaminé, as rodas de aço, engatadas umas as outras, movidas a carvão e a pequena cabine. Depois um vagão, mais um, mais um, mais um, o que o mar levava sem a menor piedade em uma única onda. Cada vez mais só...

            Um dia, após horas de trabalho, cheguei à perfeição. Um trem com treze vagões com janelas voltadas para o céu e um arremedo de homem acenando para mim da janela. Acenei de volta e corri pela praia imitando o som que há muito havia esquecido.

            Estava tão ausente de mim que não vi um avião sinalizando, com as asas, que havia me visto.

            Algumas horas depois um barco me resgatava. Não me lembro do fato, mas disseram que tiveram dificuldades em erguer meu corpo da areia. Minhas mãos se recusavam em se abrir e soltar uma das mãos do condutor da locomotiva. Mãos que não me deixaram cada vez mais só, como pensava.

            Três dias depois, já na minha residência, recebi um telefonema. Um jornalista me perguntando o que me manteve viva por mais de dois meses. Pensei a respeito por uns segundos e respondi: o apito do trem.

terça-feira, 1 de outubro de 2019

Diário de Um Insano, Ed. Revista e Ampliada




“Diário de um Insano” é um romance policial que conta a história de Chad, um ex-playboy americano e Marta, sua experiente parceira, ambos inspetores da delegacia de homicídios da Cidade do Rio de Janeiro.
Apesar de suas às vezes hilárias, profundas diferenças e conflitos internos a dupla terá que desvendar o assassinato de uma famosa atriz. A narrativa é fascinante e faz com que o leitor permaneça ávido por descobrir, do início ao fim, a revelação da verdade, com um final tão inesperado quanto chocante.

Disponível: www,editoraexcentrica.com