CARACÓIS X CORRUPÇÃO
A menina sardenta, em seu traje de
bailarina, descia a ladeira, arrastada pela mãe. Pedrita não parecia nem um cadim
empolgada com a sua primeira apresentação oficial, desde que fora inscrita na
pequena academia de dança clássica situada na cidade vizinha, no interior do
Estado de Minas Gerais.
Foi um fracasso. Sua
mãe, encolhendo-se na cadeira a cada tombo da menina magricela que,
desengonçada, tentava se equilibrar na ponta dos pés, foi o suficiente para
convencê-la de que sua filha jamais conheceria os palcos do Teatro
Municipal...Foi melhor assim. Não queria ser execrada pelos outros pais no caso
de Pedrita quebrar algum dos ossos dos corpinhos minúsculos que arriscavam suas
integridades físicas ao efetuarem rodopios graciosos ao lado de Pedrita que gostava
mesmo de jogar bola, montar Zinabre, o cavalo que seu padrinho lhe dera quando
completara dez anos de idade, a contragosto da mãe que só cedeu aos apelos
lacrimejantes da filha quando esta jurara nunca mais tomar banho na enchente
provocada pelas chuvas que inundavam a cidade todo mês de janeiro. Dona Joana
sabia que sua filha seria capaz de domar um cavalo como ninguém, porém a
leptospirose fugia ao seu controle. Isso sem mencionar sua aptidão para arrumar
encrenca e uma boa briga. Tinha uma “esquerda” temida até pelos meninos
maiores. Pobre mãe de Pedrita! Todo santo dia, uma anotação na caderneta
escolar.
Dona Joana, nessas
horas, agradecia a Deus por haver apenas uma escola na cidade, caso contrário,
sua filha colecionaria expulsões. A pobre mulher, já cansada de comparecer a
reuniões de pais onde o assunto principal era o temperamento intempestivo de
Pedrita, cruzava a rua e trocava de calçada cada vez que se via um dos pais da
mais recente vítima de sua filha se aproximando.
O pai, quase sempre
ausente, sobrecarregava a esposa, que acumulava as desgastantes funções de
cuidar da casa, dar conta da faculdade de Pedagogia que cursava à noite, em uma
cidade relativamente distante, e controlar o gênio indomável de Pedrita.
Seu José trocara a
enxada para tentar a sorte na cidade grande. Trabalhava como inspetor, no
extinto Instituto Brasileiro do Café, e só visitava a família de dois em dois
meses. Dividia um quartinho em uma pensão com um amigo e juntava cada centavo
para comprar a primeira casa própria do casal e dar um pouco mais de conforto à
sua família.
Nessas visitas
esporádicas, o pai sentava-se alegremente em sua cadeira de balanço e, com
Pedrita alojada em seu colo, lia e relia os livros infantis que trazia da
capital para a menina afoita por conhecimentos, quanto por travessuras.
Quando o piscar da
menina inquieta se alongava mais do que o normal, seu pai a colocava na cama,
ligava a TV e, abraçado a dona Joana, assistia ao telejornal.
Pedrita, usando da
artimanha de fingir cansaço, esgueirava-se até o batente da porta da sala e
assistia às notícias “impróprias” para crianças, fascinada.
Não perdia um
comentário arredio de seu pai sobre a corrupção que
assolava o país, transformando pessoas carentes em escravos de uma coisa que
ela não entendia. “Bolsas? Como uma bolsa pode aprisionar alguém?” Até entender
aquela coisa esquisita, manteria distância de mulheres que cruzassem seu
caminho com sacolas grandes o suficiente para sugá-la e aprisioná-la. Não
queria ser pobre para o resto da vida.
Esse medo atormentou
Pedrita por longos meses. Chegou a beirar o pânico, a ponto de pedir à mãe que
não mais a levasse ao mercadinho de seu Manuel, o que deixou a mãe
cabreira, pois era festa para Pedrita o dia das compras semanais, quando
escolhia guloseimas variadas e sempre ganhava um pirulito de framboesa do dono
do estabelecimento. Dona Joana tinha certeza de que o presente não se tratava
de uma cortesia e sim de uma pequena “propina” para manter a menina distante de
seu caçula que já havia tomado uns cascudos da filha.
Pedrita que não temia
o escuro, passou a ter pesadelos horrendos com monstros multicoloridos que no
lugar de asas tinham alças. Acordava suando e gritando pela mãe que a
aconchegava em seus braços macios e transformava em névoa a imagem antes tão
real e assustadora.
Isso não poderia
continuar assim. A menina sentia vergonha do medo. Então, tomou a decisão que
mudaria sua vida para o bem ou para o mal. Teria uma conversa com seus pais,
pois se chegasse ao ponto de fazer pipi na cama, assombrada pelos tais monstros
esquisitos, não mais sairia de casa. Não poderia mais usar aplicar seus jabs
nos garotos grandes que ousavam puxar suas tranças com a mesma autoridade.
– O que um político? –
perguntou após alguns minutos, para surpresa do homem.
O pai e a mãe se
entreolharam como se disputassem a esquiva. Dona Joana deu de ombros, como se
dissesse “Agora é com você, querido. Tenho a louça para lavar”.
– São homens que fazem
as leis, docinho. Que dizem o que é certo e o que é errado, entende? – A menina
pensou, pensou mais um pouco. Enfiou o dedo no nariz e retirou uma meleca
considerável e o pai disse “Que coisa feia, Pedrita! Vá lavar esta mão agora!”
– Então mamãe é um
político?
O pai não conseguiu segurar a gargalhada e
ouviu os protestos da esposa que vieram da cozinha.
– Não, meu anjo. Veja
bem, você conhece o prefeito Malaquias?
– Claro que conheço.
Ele é bravo, papai. Não deixa eu andar em cima do muro da prefeitura.
– Pedrita! Não quero você fazendo isso, estamos
entendidos? É muito perigoso!
– Mas, pai, os meninos ficam
dizendo que só os garotos conseguem. Isso não é justo.
A mãe voltou da cozinha. O assunto estava
ficando interessante e dona Joana não perderia a oportunidade de assistir à
desenvoltura do pai, que se negava em acreditar nas coisas que sua filha
adorada era capaz de fazer.
Pedrita, astuta que
era, tratou de voltar ao assunto.
– O prefeito Malaquias
é político?
O pai se furtou de
encarar a esposa que esperava um sermão do marido que a ajudasse a impor um
limite à filha incontrolável.
– Sim, Pedrita! Um político, além de dizer o
que é certo ou errado, arrecada imposto, que é uma parte do dinheiro que todos
nós adultos que moramos na cidade, pagamos para que ele possa cuidar da dela,
construir hospitais, escolas, estradas, percebe?
Pedrita havia
entendido. Um político cuidava da cidade assim como a mãe cuidava da casa.
Quanto a esse assunto, deu-se por satisfeita.
O pai voltou sua
atenção para o jornal que deixara em canto da mesa. Era sua hora de descobrir
como andava seu time na tabela do campeonato carioca.
Entretido, não se deu
conta de que Pedrita não havia se levantado e o olhava fixamente, sendo
observada pela mãe, que previa novidades a qualquer tempo. A pouquíssimo tempo.
– Pai, o que é corruspito?
O pai, de boca aberta,
pronto para engolir uma colherada robusta de pudim de leite condensado, assim
ficou por algum tempo.
José largou o jornal e
a colher de sobremesa. Convencera-se de que seu dia de ser pai havia chegado e
teria que fazer o melhor, pois a filha não era menina de ser ludibriada
facilmente.
– Corrupto, Pedrita.
A mãe a corrigiu, mas, novamente, deixou para
o pai a tarefa de esclarecer à filha sobre o complexo assunto. Dona Joana, na
verdade, divertia-se com o desconforto do marido.
O homem se remexeu na
cadeira e coçou o cavanhaque. Crianças na fase dos “por quês” são piores que
coceira naquele lugarzinho onde o braço não alcança.
– Pedrita, há diversas
formas de corrupção, mas vou explicar a mais comum, assim você entenderá com
facilidade, esperta que é.
O pai apertou a
bochecha da filha e ela sorriu.
– Há diversos
políticos que são corruptos, ou seja, que pegam o dinheiro dos impostos que
pagamos, como expliquei, e não constroem nada para tornar as cidades melhores.
– E o que eles fazem
com o dinheiro?
José curvou-se em
direção à filha e sussurrou em seu ouvido:
– Desviam, quer dizer,
gastam o dinheiro que não lhes pertence. Imagine você entrando sorrateiramente
no quarto de Juju, sua melhor amiga, pegar a mesada dela e gastar tudo com
coisas para você. Errado. Muito errado tomar o que não é seu.
– E por que eles fazem
isso?
Xeque-mate! O homem
olhou para a esposa implorando ajuda. A mulher lhe deu as costas, pegou o
guardanapo e limpou a boca suja de feijão da filha. O pai se viu sozinho
naquela encruzilhada. Dona Joana sorria silenciosamente.
– Por que são pessoas
ruins, sem coração, sem amor ao próximo, entende?
Os olhos semicerrados
da mãe diziam que a resposta estava aquém do esperado, mas torceu para que a
filha se convencesse.
Pedrita apoiou os
cotovelos na mesa para sustentar a cabecinha, como se as dúvidas pesassem feito
chumbo. As coisas ainda não se encaixavam na mente insubmissa da menina.
Pedrita não se deu por
vencida. Uma comichão de curiosidade invadia sua mente e não conseguiria pregar
o olho a noite se não descobrisse algo sobre o que a atormentava.
– É verdade que
existem bolsas que comem pessoas pobres?
O pai engasgou e
tossiu feito louco a ponto fazer dona Joana se levantar rapidamente, dar a
volta na mesa e aplicar-lhe tapinhas nas costas. Pedrita ficou paralisada. A
coisa deveria ser feia mesmo. Tão feia que quase matara seu pai que roxo ficou
somente ao ouvir a palavra. Já havia se arrependido de ter feito a pergunta
quando o homem, recuperando o fôlego e a cor normal, conseguiu emitir um
arremedo de sorriso.
– Menina, com quem
anda conversando?
Os pais a olhavam
ansiosos por uma resposta e Pedrita se encolheu na cadeira. “Como explicar que
andei espionando meus próprios pais?”, pensou, tentando articular uma resposta
que não comprometesse sua traquinice.
– Ouvi na escola. A
filha do seu Martin contou às suas amigas da oitava série que o pai de
Martinha só vive porque uma tal de bolsa deixa. Ele é pobre, não é?
O pai a pegou no colo
e a mãe acariciou seus cabelos. Pedrita estava assustada, o que impediu os pais
de se divertirem diante de tamanha ideação.
– Filha, bolsa é um
dinheiro que o governo distribui às pessoas de baixa renda, ou seja, sem muito
dinheiro – respondeu José.
Pedrita não ouviu o
último comentário do pai. Estava revoltadíssima e as bochechas escarlates
faziam companhia às mãozinhas cerradas. Não mais se importava com explicações.
“Dinheiro? Passara os
últimos meses com medo de dinheiro?” Pedrita recriminou-se por ter sido tão
covarde.
****
A menina acordou
feliz. Não havia mais medo em seu coração, então resolveu visitar a avó.
Comeria tutu e bolinho de arroz depois de ajudá-la na horta, coisa que a menina
apreciava.
A casa exalando
perfume de margaridas recém-colhidas, o retrato do avô com uniforme do
exército, em cima do jarro que adornava a mesinha de canto, e o sofá coberto
com uma colcha de retalhos coloridos, costurada com zelo pela vovó Manuelita,
trazia aconchego ao coração da menina.
– Vó!
Já entrava gritando e
se dirigindo ao pote de doce de abóbora feito no fogão à lenha da doceira
Pepita. Doce melhor, na cidade não havia.
A avó, que sempre
respondia ao seu chamado, ignorou-a e continuou praguejando. Pedrita caminhou
pé ante pé e viu a enxada pendendo em uma das mãos da senhora que coçava a
cabeça como se procurasse uma solução para um enorme problema. Na verdade,
estava...
– Vovó?
– Ah, oi, menina
levada! Vem dar um cheiro nesta velha aqui, vem! – dona Manuelita largou a
enxada e agarrou sua neta com as mãos sujas de terra.
– Está tudo bem, vovó?
– Tá não, fia. Esses caracóis estão comendo toda minha horta. Tiro eles de dia
e no outro lá estão outros. Isto é uma praga! – grunhiu a avó, desolada.
– Vó, posso ver um?
– Claro! Dê uma olhada
dentro daquele latão ali. Achei mais de dúzia deles.
Pedrita quase enfiou a
cabeça dentro do recipiente e analisou com cautela. Depois olhou para as
couves, todas carcomidas nas beiradas.
– Vovó, eles são
pobres?
A avó ergueu uma de
suas sobrancelhas, tentando entender a pergunta inusitada da neta.
– Pobres? Por que me
pergunta uma coisa dessa, menina? Animais são sempre pobres caso não tenham um
dono que lhes dê de comer.
Foi uma resposta
pequena para uma pergunta tão grande e a avó sentiu-se envergonhada.
– Zinabre não é pobre,
então. Eu dou dê comer pra ele...
– É verdade. Zinabre é
rico, muito rico, porque tem seu amor, Pedrita.
– Por que o governo
não dá uma bolsa para eles?
– Jesus, misericórdia!
Olha, menina, vou ter uma conversa séria com seus pais. O que José anda colocando
em sua cabecinha tão jovem?
Manuelita não se
dirigia à neta. Já pensava no puxão de orelhas que daria em seu filho. Estava
certo em não aceitar passivamente o caos em que se transformara o país, como a
grande maioria das pessoas, mas isso não era justificativa para encher a cabeça
de uma criança de caraminhola.
Pedrita sentou-se na
pedra onde costumava descansar após amaciar, adubar e regrar a horta com a avó
e ficou pensativa.
Dona Manuelita
continuou os trabalhos, mas de vez em quando olhava de soslaio para a neta.
– Está certo, Pedrita, fale logo. Sei que vai falar mais cedo ou mais
tarde.
A avó deixou, mais uma vez, a enxada de lado e
se sentou ao lado da neta.
– Vovó, você está
errada. Eles não são pobres. Se fossem, ganhariam bolsas, papai não mentiria
para mim!
Manuelita jogou a as
mãos para o céu. Rendeu-se às conclusões tortamente coerentes.
– Tudo bem, Pedrita.
Se eles não são pobres, o que são, então, menina?
– Corruptos! Roubam as
coisas dos outros!
– Faz sentido... Vai
ver que é por isso que eles são enrolados...
– Vovó! – a menina
levantou-se de um salto.
Dona Manuelita, por
puro reflexo, pôs-se de pé também, assustada com a euforia da neta.
– Isso, vovó! O guarda
Vanderley prende gente enrolada. Será que ele não poderia dar um jeito nesses caracóis?
– Olha, Pedrita, desde
que eu me entendo por gente, corruptos não vão para a cadeia. E se vão, ficam
presos por pouco tempo, entende?
– Por que não?! – a
menina pôs as mãos nas “cadeiras”.
Manuelita suspirou
profundamente.
– Pedrita, quando
chegar a hora, acredite na vovó, não gostará do que vai ouvir como explicação.
A avó parecia infeliz.
Não queria que sua pequena sofresse por antecipação por uma coisa tão sórdida.
As pessoas se acomodam
com o que não podem mudar... Com o que pensam que não podem mudar. Dona
Manuelita olhou para o formigueiro... Cada formiguinha fazendo sua parte.
A neta, ao perceber a angustia da avó,
apressou-se em dizer:
– Não precisa se
preocupar, vovó. É assunto de adultos. Se um dia vou entender, tudo bem. Posso
regrar os tomates?
Dona Manuelita
desmanchou os cabelos da neta com um afago. A trégua oferecida pela neta a
comoveu, pois sabia que a menina só abrira mão de uma explicação razoável
porque a viu atordoada.
– Pode sim, meu bem.
As duas trabalhavam em
silêncio até Pedrita chegar à conclusão a que todos chegamos um dia.
– Vovó?
– Sim?
– Não quero crescer...
– Bom seria se nunca crescêssemos, Pedrita...
****
No Plenário da Câmara,
a deputada federal mais jovem que o país já elegera, Pedrita Soares da Veiga,
defendia com fervor a lei que tornaria crime hediondo a corrupção,
quando um deputado fanfarrão, já em seu quarto mandato sem sequer ter
apresentado qualquer projeto de lei que beneficiasse o povo, interrompeu-a:
– O que a jovem
deputada entende sobre projetos de leis?
O sorriso zombeteiro
provocou reboliço entre seus cupinchas que ironizavam, nos bastidores, a
roceira que mal saíra dos cueiros e já queria dar lição de moral naqueles que
se julgavam experientes.
Sem alterar a voz ou
perder a compostura, a moça respondeu:
– Pouca coisa, nobre
deputado, mas sei tudo que preciso saber sobre “caracóis” ...

