sábado, 26 de novembro de 2022

A ILHA E O TREM

 


Nasci em uma cidade do interior do Estado do Rio de Janeiro. Meu pai conduzia um dragão daqueles que soltava fogo pelas ventas e rangia quando se punha em movimento como se isso fosse uma tortura. Era maquinista, meu herói.

            Muitas vezes, ele me deixava puxar aquela cordinha mágica que prenunciava a partida do monstro de aço. Não posso atinar reviver tamanha tristeza ao vê-lo deixando a cidade lentamente enquanto o acompanhava até os limites da calçada da estação onde meu adeus morria.

            Hoje um sorriso adulto surge em meus lábios quando me lembro dos meus olhinhos marejados de lágrimas, já prenunciando saudade, que acompanhavam o desaparecer do trem na curva que o engolia, deixando para trás apenas seu barulho irreprodutível.

            Com o último adeus de meu pai eu voltava minha atenção para algo divertido, pois era uma criança e crianças se deixam ludibriar facilmente com a promessa de algo de seu interesse. Uma bênção da efêmera pureza.

            De mãos dadas à minha mãe, deixava a estação e caminhava, alegremente, para a barraquinha de sorvete do seu Miguel. Ali os meus amigos me esperavam para novas aventuras em cima das goiabeiras do sítio do meu tio Dôdo ou – nossa traquinagem favorita que mamãe nunca poderia saber – para azucrinarmos a vida da vaca, chamada Sardinha, que ele mantinha por ser uma excelente reprodutora mal humorada. Assim que o animal enfurecido cedia aos nossos apelos e partia com toda fúria em nossa direção, corríamos até a cerca que nos separava e, assim que passávamos por entre os fios de arame farpado, ficávamos fazendo careta para a vaca que, visivelmente contrariada, voltava sua atenção para a grama verde e apetitosa.

            Assim, cresci... Deixei o interior e me mudei para a capital para completar meus estudos. Fui morar com meus avós em um apartamento em Copacabana.

            Já havia os havia visitado inúmeras vezes, mas nunca com a certeza de que não mais voltaria ao meu lar, à minha terra, onde deixei minha inocência e Sardinha. Não havia argumentos que pudessem comprovar essa certeza que brotou em meu coração assim que deixei minhas malas no quarto preparado com esmero para me receber. Então, chorei ao me dar conta de que o vazio que sentia não seria preenchido com o meu retorno. Não me mudei de endereço e sim de sonhos e perspectivas. Isso ficou claro quando peguei o telefone para avisar aos meus pais que a viagem fora agradável e minha voz não era a mesma. Caso desistisse naquele momento e pedisse para voltar, creio que não haveria empecilho algum, mas não era o que esperavam de mim... Não era o que eu realmente queria para mim... Nunca mais haveria goiabeiras, nunca mais haveria Sardinha. Até o gosto do sorvete do seu Miguel não seria o mesmo. Então, com a voz engasgada e as lágrimas silenciosas que não pude conter, desliguei não antes da promessa que faria o melhor que pudesse. Cumpri minha promessa.

            Graduei-me, pós-graduei-me, e, como mestra e doutora em Engenharia Civil, conheci o mundo já totalmente alheia ao apito do trem que um dia eu cultuava. Entre uma palestra e outra, não havia tempo para recordações pueris. Sardinha já havia morrido, meu tio vendera o sítio e eu não mais subiria nas goiabeiras que ainda estão lá, provavelmente, sendo exploradas por crianças tão sapecas quanto eu e minha turma de que, diga-se de passagem, nunca mais tive notícias.      

            Certo dia, um grupo de amigos me convidou para uma viagem as Filipinas. O trajeto programado envolvia o aluguel de um barco que nos levaria até as Ilhas Rock, um arquipélago formado por cerca de 250 ilhas, a 240 milhas do continente. Lá mergulharíamos, coisa que não fazia há tempos.

            A princípio, recusei o convite pondo a culpa no trabalho. Depois de ouvir a opinião unânime daqueles que ainda insistiam em me chamar de “amiga” e se importarem comigo, respondi que verificaria minha agenda e retornaria as ligações. As respostas quanto a essa segunda desculpa pouco criativa também foram unânimes: Hã, hã. Sim, eles estavam se cansando...

            Abri um vinho e, com um soul ao fundo, caminhei até minha janela com vista para o mar. Ao me dar conta de que meus pés haviam se esquecido do toque da areia, corri para minha agenda. Não havia nada programado para os dias em que meus amigos estariam fora da cidade. Perplexa, dei-me conta de que no período de um ano, só tomamos uns drinques uma única vez e mesmo assim no meu aniversário, em uma festa surpresa na minha própria casa! Lembrei-me do pijama e da cara amarrotada com que abri, contrariada, a porta e vi todos eles no meu corredor. Traziam seus velhos e francos sorrisos, champanhe, uma torta maravilhosa de abacaxi e chapeuzinhos ridículos de festas infantis. Déjà-vu que me fez pegar o telefone e ligar às três horas da madrugada – para cada um deles e dizer – Tô dentro!” As vozes de sono me perdoaram, afinal era uma boa notícia que lhes dava.         

            O voo foi agradável. Falamos de coisas de que não me lembrava e isso não me causou estranheza, afinal sou uma daquelas pessoas que constroem “arranha-céus” e sequer conhecem seus vizinhos. A cidade grande nos torna pessoas solitárias que se contentam com um celular quando, na verdade, precisam de um abraço. Mas essas questões que banalizamos não deveriam estar naquele avião, então as deixei de lado e me permitir sorrir das piadas sem graça de Marcus, supostamente meu melhor amigo.

            Já no cais, o vento me fazendo travar uma longa e angustiante briga com os meus cabelos que me impediam de contemplar a magnitude do azul. Sem dúvida alguma, não era o mesmo azul que, às vezes, admirava da minha janela. Estava feliz e as cores mudam com o estado de espírito de quem as contempla. Se a ciência não pode provar o que digo, meu coração afirma.       

            A viagem transcorria tranquilamente quando o céu se tornou cinza, depois o cinza deu lugar ao negro. O mar agitou-se a chuva caiu. A princípio, elegante, depois devastadora. As ondas castigavam o casco e o dia se tornou noite. O rádio e a sonda da embarcação deram pane, e o sacolejar do barco desgovernado, espalhou o pânico entre nós.

            O barco aguentou até onde pôde até se chocar com um recife e partir-se ao meio. Estávamos entregues à própria sorte.

            A última coisa de que me lembro foi de me agarrar a um dos destroços do barco, escalá-lo e me jogar sobre ele, envolvendo-o em um abraço desesperado. Ouvi gritos ao longe. Meus amigos estavam morrendo e provavelmente eu também. Desmaiei.

            Acordei com o sol esturricando minhas costas e olhei ao redor. “Uma praia ou miragem?”, pensei. Com o movimento das ondas me levando cada vez mais para a terra chorei minha esperança. Usei da pouca força que me restava para avançar com mais rapidez para terra firme. Estava faminta e com sede e, naquela ilha, rezava para encontrar algo que me mantivesse viva.

            Antes de alcançar a areia, pulei de minha embarcação improvisada e, como não sei, nadei até meus pés encontrarem a areia fria. Gritei como naquela estação, jogando água para todos os lados. Pouco me importei com minha ínfima chance de sobrevivência. A esperança é um sentimento cego e sobrevive de migalhas desde que não a esqueçamos.

            Após a euforia, rastejei até a sombra de uma árvore e uma vertigem me dominou. Não podia desmaiar sem beber algo, caso contrário poderia não acordar.

            Olhei ao redor e, para minha alegria, havia coqueiros por todos os lados; para minha tristeza, não eram goiabeiras. Minha experiência acumulada na infância não me seria útil naquela hora. Não havia galhos naquelas árvores...

            “Pense! Pense! Você não vai morrer aqui!” A imposição ecoou em minha mente trazendo consigo a força que só a morte iminente é capaz de ressuscitar. Pus-me de pé e iniciei as buscas por uma mísera pedra e, enquanto buscava, dei o devido valor aos tijolos que fizeram de mim uma profissional respeitada.

            Encontrei algumas e voltei para a praia quase sorrindo, pronta para a batalha final: coqueiro X sra. engenheira famosa.

            Primeira tentativa: a pedra mal se ergueu meio metro. Pus as mãos nos joelhos e respirei fundo.

            Segunda tentativa: a pedra chegou à metade do tronco. Ajoelhei e rezei.

            Terceira tentativa: a pedra bateu em um dos cocos e este nem se moveu: gritei todos os impropérios que nem sabia que conhecia.

            ?????? tentativa: um coco caiu e eu cai junto. Minhas costas bateram com força na areia dura e a vertigem anuviou minha visão, quase me levando para o mundo dos mortos. Creio que não morri porque me lembrei de Sardinha. Se eu sobrevivi a ela, sobreviveria a qualquer coisa.

            Destrocei o coco já amadurecido e a água desceu pela minha garganta como se fosse a primeira vez que sentia aquele sabor. Delicioso, revigorante, vital... Comi a carne macia da fruta e, em pouco tempo, tornei-me uma expert em subidas em coqueiros.

            Fiz uma cabana com os galhos, bem aconchegante, desconsiderando o fato de que não havia ar-condicionado. Definitivamente, estava enlouquecendo.

            Os dias passavam e eu cada vez mais só. “Há como ser mais só?”, perguntei-me em meu delírio. “Sim. A solidão é autofágica”, respondia.

            Como nos filmes, todos os dias escrevia SOS na areia e não obtive sucesso. Cada vez mais só...

            Em um momento de desatino e desesperança, comecei a desenhar um trem igualzinho ao que meu pai conduzia.

            Com o tempo, fui aperfeiçoando minha arte. A chaminé, as rodas de aço, engatadas umas as outras, movidas a carvão e a pequena cabine. Depois um vagão, mais um, mais um, mais um, o que o mar levava sem a menor piedade em uma única onda. Cada vez mais só...

            Um dia, após horas de trabalho, cheguei à perfeição. Um trem com treze vagões com janelas voltadas para o céu e um arremedo de homem acenando para mim da janela. Acenei de volta e corri pela praia imitando o som que há muito havia esquecido.

            Estava tão ausente de mim que não vi um avião sinalizando, com as asas, que havia me visto.

            Algumas horas depois um barco me resgatava. Não me lembro do fato, mas disseram que tiveram dificuldades em erguer meu corpo da areia. Minhas mãos se recusavam em se abrir e soltar uma das mãos do condutor da locomotiva. Mãos que não me deixaram cada vez mais só, como pensava.

            Três dias depois, já na minha residência, recebi um telefonema. Um jornalista me perguntando o que me manteve viva por mais de dois meses. Pensei a respeito por uns segundos e respondi: o apito do trem.

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