Nasci em uma cidade do interior do Estado do Rio de Janeiro. Meu pai conduzia
um dragão daqueles que soltava fogo pelas ventas e rangia quando se punha em
movimento como se isso fosse uma tortura. Era maquinista, meu herói.
Muitas vezes, ele me
deixava puxar aquela cordinha mágica que prenunciava a partida do monstro de aço.
Não posso atinar reviver tamanha tristeza ao vê-lo deixando a cidade lentamente
enquanto o acompanhava até os limites da calçada da estação onde meu adeus
morria.
Hoje um sorriso adulto
surge em meus lábios quando me lembro dos meus olhinhos marejados de lágrimas,
já prenunciando saudade, que acompanhavam o desaparecer do trem na curva que o
engolia, deixando para trás apenas seu barulho irreprodutível.
Com o último adeus de
meu pai eu voltava minha atenção para algo divertido, pois era uma criança e crianças
se deixam ludibriar facilmente com a promessa de algo de seu interesse. Uma
bênção da efêmera pureza.
De mãos dadas à minha
mãe, deixava a estação e caminhava, alegremente, para a barraquinha de sorvete
do seu Miguel. Ali os meus amigos me esperavam para novas aventuras em
cima das goiabeiras do sítio do meu tio Dôdo ou – nossa traquinagem favorita que mamãe
nunca poderia saber – para azucrinarmos a vida da vaca, chamada Sardinha, que
ele mantinha por ser uma excelente reprodutora mal humorada. Assim que o animal
enfurecido cedia aos nossos apelos e partia com toda fúria em nossa direção,
corríamos até a cerca que nos separava e, assim que passávamos por entre os
fios de arame farpado, ficávamos fazendo careta para a vaca que, visivelmente
contrariada, voltava sua atenção para a grama verde e apetitosa.
Assim, cresci...
Deixei o interior e me mudei para a capital para completar meus estudos. Fui
morar com meus avós em um apartamento em Copacabana.
Já havia os havia
visitado inúmeras vezes, mas nunca com a certeza de que não mais voltaria ao
meu lar, à minha terra, onde deixei minha inocência e Sardinha. Não havia
argumentos que pudessem comprovar essa certeza que brotou em meu coração assim
que deixei minhas malas no quarto preparado com esmero para me receber. Então,
chorei ao me dar conta de que o vazio que sentia não seria preenchido com o meu
retorno. Não me mudei de endereço e sim de sonhos e perspectivas. Isso ficou
claro quando peguei o telefone para avisar aos meus pais que a viagem fora agradável
e minha voz não era a mesma. Caso desistisse naquele momento e pedisse para
voltar, creio que não haveria empecilho algum, mas não era o que esperavam de
mim... Não era o que eu realmente queria para mim... Nunca mais haveria
goiabeiras, nunca mais haveria Sardinha. Até o gosto do sorvete do seu
Miguel não seria o mesmo. Então, com a voz engasgada e as lágrimas silenciosas
que não pude conter, desliguei não antes da promessa que faria o melhor que
pudesse. Cumpri minha promessa.
Graduei-me, pós-graduei-me,
e, como mestra e doutora em Engenharia Civil, conheci o mundo já totalmente
alheia ao apito do trem que
um dia eu cultuava. Entre uma palestra e outra, não havia tempo para
recordações pueris. Sardinha já havia morrido, meu tio vendera o sítio e eu não
mais subiria nas goiabeiras que ainda estão lá, provavelmente, sendo exploradas
por crianças tão sapecas quanto eu e minha turma de que, diga-se de passagem,
nunca mais tive notícias.
Certo dia, um grupo de
amigos me convidou para uma viagem as Filipinas. O trajeto programado envolvia
o aluguel de um barco que nos levaria até as Ilhas Rock, um arquipélago formado
por cerca de 250 ilhas, a 240 milhas do continente. Lá mergulharíamos, coisa
que não fazia há tempos.
A princípio, recusei o
convite pondo a culpa no trabalho. Depois de ouvir a opinião unânime daqueles
que ainda insistiam em me chamar de “amiga” e se importarem comigo, respondi
que verificaria minha agenda e retornaria as ligações. As respostas quanto a
essa segunda desculpa pouco criativa também foram unânimes: Hã, hã. Sim, eles
estavam se cansando...
Abri um vinho e, com
um soul ao fundo, caminhei até minha janela com vista para o mar. Ao me dar
conta de que meus pés haviam se esquecido do toque da areia, corri para minha
agenda. Não havia nada programado para os dias em que meus amigos estariam fora
da cidade. Perplexa, dei-me conta de que no período de um ano, só tomamos uns
drinques uma única vez e mesmo assim no meu aniversário, em uma festa surpresa
na minha própria casa! Lembrei-me do pijama e da cara amarrotada com que abri,
contrariada, a porta e vi todos eles no meu corredor. Traziam seus velhos e
francos sorrisos, champanhe, uma torta maravilhosa de abacaxi e chapeuzinhos
ridículos de festas infantis. Déjà-vu que me fez pegar o telefone e
ligar às três horas da madrugada – para cada um deles e dizer – Tô dentro!” As
vozes de sono me perdoaram, afinal era uma boa notícia que lhes dava.
O voo foi agradável.
Falamos de coisas de que não me lembrava e isso não me causou estranheza,
afinal sou uma daquelas pessoas que constroem “arranha-céus” e sequer conhecem
seus vizinhos. A cidade grande nos torna pessoas solitárias que se contentam
com um celular quando, na verdade, precisam de um abraço. Mas essas questões
que banalizamos não deveriam estar naquele avião, então as deixei de lado e me
permitir sorrir das piadas sem graça de Marcus, supostamente meu melhor amigo.
Já no cais, o vento me
fazendo travar uma longa e angustiante briga com os meus cabelos que me
impediam de contemplar a magnitude do azul. Sem dúvida alguma, não era o mesmo
azul que, às vezes, admirava da minha janela. Estava feliz e as cores mudam com
o estado de espírito de quem as contempla. Se a ciência não pode provar o que
digo, meu coração afirma.
A viagem transcorria
tranquilamente quando o céu se tornou cinza, depois o cinza deu lugar ao negro.
O mar agitou-se a chuva caiu. A princípio, elegante, depois devastadora. As
ondas castigavam o casco e o dia se tornou noite. O rádio e a sonda da
embarcação deram pane, e o sacolejar do barco desgovernado, espalhou o pânico
entre nós.
O barco aguentou até
onde pôde até se chocar com um recife e partir-se ao meio. Estávamos entregues
à própria sorte.
A última coisa de que
me lembro foi de me agarrar a um dos destroços do barco, escalá-lo e me jogar
sobre ele, envolvendo-o em um abraço desesperado. Ouvi gritos ao longe. Meus amigos
estavam morrendo e provavelmente eu também. Desmaiei.
Acordei com o sol
esturricando minhas costas e olhei ao redor. “Uma praia ou miragem?”, pensei.
Com o movimento das ondas me levando cada vez mais para a terra chorei minha
esperança. Usei da pouca força que me restava para avançar com mais rapidez
para terra firme. Estava faminta e com sede e, naquela ilha, rezava para encontrar algo que me mantivesse
viva.
Antes de alcançar a
areia, pulei de minha embarcação improvisada e, como não sei, nadei até meus
pés encontrarem a areia fria. Gritei como naquela estação, jogando água para
todos os lados. Pouco me importei com minha ínfima chance de sobrevivência. A
esperança é um sentimento cego e sobrevive de migalhas desde que não a
esqueçamos.
Após a euforia,
rastejei até a sombra de uma árvore e uma vertigem me dominou. Não podia
desmaiar sem beber algo, caso contrário poderia não acordar.
Olhei ao redor e, para
minha alegria, havia coqueiros por todos os lados; para minha tristeza, não
eram goiabeiras. Minha experiência acumulada na infância não me seria útil
naquela hora. Não havia galhos naquelas árvores...
“Pense! Pense! Você
não vai morrer aqui!” A imposição ecoou em minha mente trazendo consigo a força
que só a morte iminente é capaz de ressuscitar. Pus-me de pé e iniciei as
buscas por uma mísera pedra e, enquanto buscava, dei o devido valor aos tijolos
que fizeram de mim uma profissional respeitada.
Encontrei algumas e
voltei para a praia quase sorrindo, pronta para a batalha final: coqueiro X
sra. engenheira famosa.
Primeira tentativa: a
pedra mal se ergueu meio metro. Pus as mãos nos joelhos e respirei fundo.
Segunda tentativa: a
pedra chegou à metade do tronco. Ajoelhei e rezei.
Terceira tentativa: a
pedra bateu em um dos cocos e este nem se moveu: gritei todos os impropérios
que nem sabia que conhecia.
?????? tentativa: um
coco caiu e eu cai junto. Minhas costas bateram com força na areia dura e a
vertigem anuviou minha visão, quase me levando para o mundo dos mortos. Creio
que não morri porque me lembrei de Sardinha. Se eu sobrevivi a ela,
sobreviveria a qualquer coisa.
Destrocei o coco já
amadurecido e a água desceu pela minha garganta como se fosse a primeira vez
que sentia aquele sabor. Delicioso, revigorante, vital... Comi a carne macia da
fruta e, em pouco tempo, tornei-me uma expert em subidas em coqueiros.
Fiz uma cabana com os
galhos, bem aconchegante, desconsiderando o fato de que não havia
ar-condicionado. Definitivamente, estava enlouquecendo.
Os dias passavam e eu
cada vez mais só. “Há como ser mais só?”, perguntei-me em meu delírio. “Sim. A
solidão é autofágica”, respondia.
Como nos filmes, todos
os dias escrevia SOS na areia e não obtive sucesso. Cada vez mais só...
Em um momento de
desatino e desesperança, comecei a desenhar um trem igualzinho ao que meu pai conduzia.
Com o tempo, fui
aperfeiçoando minha arte. A chaminé, as rodas de aço, engatadas umas as outras,
movidas a carvão e a pequena cabine. Depois um vagão, mais um, mais um, mais
um, o que o mar levava sem a menor piedade em uma única onda. Cada vez mais
só...
Um dia, após horas de
trabalho, cheguei à perfeição. Um trem
com treze vagões com janelas voltadas para o céu e um arremedo de homem
acenando para mim da janela. Acenei de volta e corri pela praia imitando o som
que há muito havia esquecido.
Estava tão ausente de
mim que não vi um avião sinalizando, com as asas, que havia me visto.
Algumas horas depois
um barco me resgatava. Não me lembro do fato, mas disseram que tiveram
dificuldades em erguer meu corpo da areia. Minhas mãos se recusavam em se abrir
e soltar uma das mãos do condutor da locomotiva. Mãos que não me deixaram cada
vez mais só, como pensava.
Três dias depois, já na minha residência, recebi um
telefonema. Um jornalista me perguntando o que me manteve viva por mais de dois
meses. Pensei a respeito por uns segundos e respondi: o apito do trem.

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